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Cont. Hist. Gótico. 1.4: Revival Gótico na Inglaterra e H. Walpole


Bruxas nos seus encantamentos, por Salvator Rosa, 1615-1673 - Itália


No começo do XVIII, aproximadamente entre 1740, começou o Revival Gótico na Inglaterra, no qual arquitetos começaram a produzir novamente construções com características da arquitetura da Arte Gótica do século XII e XIII. No Artigo de Lang, The Principles of the Gothic Revival in England, 1966, ele diz que, primeiro, houve um revival do Gótico na Itália, com o stage design (projeto de cenário), no final do século XVII e início do século XVIII. Ele se baseia nos estudos de Bernheimer, que diferenciava “revival” de “survival”. Os projetistas de teatro tiraram o Gótico da posse exclusiva dos arquitetos, que faziam o gótico “sobreviver”, e o “reviveram” de uma forma operática. Então, os jovens arquitetos italianos, não mais se submetendo às leis da arquitetura gótica do passado, começaram a olhar para esse novo médium do theatre design e aplicar o estilo do passado para seus próprios interesses. Semelhante a isso, aconteceu com os arquitetos ingleses, que pararam de olhar apenas para as construções de igrejas e universidades, para olhar para as ruínas góticas nos cenário de jardins: “eles tinham agora a liberdade de construir e desconstruir as formas da arte medieval, de acordo com a sua própria imagem, emocional ou sentimental" (BERNHEIMER apud LANG, 1966, p.240).


Cathédrale Notre-Dame de Chartres

12th century cathedral, which is now a UNESCO World Heritage Site

fonte: https://www.richardcassaro.com/wp-content/uploads/2011/01/16.jpg


Lang acrescenta sobre o interesse no Antiquarianismo, que começou cedo na Inglaterra. A dissolução dos monastérios e a nostalgia pela Idade Média mantiveram vivos os interesses tanto na arquitetura como nas coisas medievais, nas escrituras de igrejas, documentos clericais, na linguagem Anglo-Saxã e sua gramática (LANG, p.248). O antiquarianismo, a nostalgia pelo passado e o sentimento romântico pelos restos medievais, diz Lang, “parecem ter sido, pelo menos em parte, responsáveis pelas ruínas e follies[1] que apareciam nas paisagens de jardins inglesas do começo do século XVIII em frente” (idem, p.250).


Então, na Inglaterra, foram construídas essas ruínas "fake" que criavam a falsa impressão de uma história que nunca existiu, carregando, ao mesmo tempo, uma estranha melancolia. O escritor Paul Cooper diz que isto foi um sintoma de uma aristocracia decadente: as ruínas eram uma forma de celebrar o imperialismo britânico, pois elas eram “lugares onde o tempo parecia parar, onde nós ficamos perdidos em sonhos, e onde poderes inescapáveis de forças naturais estão em pleno vapor” (COOPER, 2018).


The Jealous Wall, in the Belvedere House and Gardens in Mullingar, County Westmeath, Ireland.

by Robert Rochfort in 1760.

Fonte: Amusing Planet


Além do antiquarianismo, as pinturas de paisagem italianas, como de Salvator Rosa, Claude e Nicolas Possin também influenciaram a presença de ruínas nas paisagens inglesas, apesar de as ruínas das pinturas italianas serem, principalmente, ruínas clássicas, como explicou Lang. Isto explicas-se pelo fato de os escritores ingleses terem comprado muitas pinturas de artistas italianos, como as de Salvator Rosa que eram muito influentes entre os ingleses e, com isso, segundo Richard Davenport-Hines, a literatura, principalmente dos graveyard poets, teria influenciado a inclusão de ruínas na paisagem jardinística inglesa. Esses “poetas de cemitério”, bebendo na melancolia de John Milton e de Shakespeare, escreveram poemas exaltando o cemitério como local de meditação sobre a morte e a vida (PARISOT, p.3). São quatro os poemas que marcaram a Graveyard School: Elegy Written in a Country Churchyard de Thomas Gray, Night-Piece on Death de Thomas Parnell, The Grave de Robert Blair e Night-Thought’s de Edward Young.

Segundo Vahe Samoorian, esses poetas acitados acima, e mais outros cinco, todos expressaram “notas de Goticismo em sua poesia” e contribuíram para “aumento do gosto pelo Goticismo” na época (1970, p. ii). Samoorian diz que um deles, Alexander Pope, foi o primeiro que escreveu um poema que pode ter sido chamado “Gótico”. Shakespeare, Alexander Pope, os graveyard poets e o revival da arquitetura gótica foram as principais influências que fizeram Horace Walpole criar um novo gênero literário, a literatura gótica, que outras escritoras e escritores vão seguir como exemplo e vão reinventar de seu modo, e dos quais vão se desdobrar as noções do que é Gótico na literatura e nas artes.


Horace Walpole

Pintura de Joshua Reynolds, 1757

Fonte: Wikipedia


Horace Walpole, precursor da literatura gótica, também era arquiteto amador, e construiu um castelo gótico para si (entre 1740-1790), chamado Strawberry Hill. Segundo Lang, a hipótese de ele ter escolhido construir um castelo em estilo gótico pode ter sido pela sua falta de um castelo ancestral. Ele tinha um sentimento patriótico forte e que da história da “nossa arquitetura” - a inglesa - a gótica era especialmente bela. Segundo Lang, esse “parece ter sido o primeiro momento na história do revival gótico que isso aconteceu”: a apreciação estética do gótico (idem, p.253). Walpole, porém, criticava William Kent - artista, ilustrador, pintor - por valorizar mais a fantasia de imagens do que olhar propriamente para as construções. Ele dizia, juntamente com outros contemporâneos seus, que esse não era o verdadeiro gótico. Entretanto, no final de sua vida, ele parece ter se dado conta e mudado de opinião devido a influência do chamado James Essex, de modo que ele disse que “eles [os quartos em Strawberry] são mais os trabalhos da fantasia do que da imitação” (WALPOLE apud LANG, p.253)


'Strawberry Hill' by William Marlow, 1776–80

Victoria and Albert Museum, 34x53,5cm watercolor

'The Library at Strawberry Hill', about 1781, by Edward Edwards (1738–1806).

© The Lewis Walpole Library, Yale University.



James Essex foi um arquiteto e historiador da arquitetura que primeiro tentou encontrar ordem na arquitetura gótica. Esta que era posta em comparação à clássica, de origem greco-romana, de colunas e ordem bem estruturadas. A gótica, por sua vez, era considerada assimétrica e desproporcional. Segundo Lang, Essex era um gótico classicista, por defender que tanto a arquitetura clássica como a gótica ou qualquer outra deveria ter as suas regras e proporções e métodos, e não deveriam ser misturadas com outras (idem, 258).


Um exemplo de arquitetura clássica: Hera II, Paestum, c. 460 B.C.E.

(Classical period), tufa, 24.26 x 59.98 m

Fonte: https://www.khanacademy.org/humanities/ancient-art-civilizations/roman/x7e914f5b:beginner-guides-to-roman-architecture/a/roman-architecture



Existiram vários outros arquitetos com várias outras opiniões, mas a questão do Revival Gótico na arquitetura teve muito essa questão patriótica do passado inglês, apesar de a arquitetura gótica ter nascido na França. Os homens privilegiados construíram casas de campo no estilo gótico como símbolos de poder de suas dinastias, que por sua vez rivalizavam com outras (HINES, p.63). A vida rural era mais difícil que a urbana, então os nobres tinham, normalmente, casas na cidade, e castelos no campo, cujos cômodos eram escuros e onde era muito frio, devido ao clima, aspectos que depois aparecerão na literatura gótica quando o castelo se torna quase um personagem obrigatório dos romances do século XVIII e XIX.



Ilustração de William Kent (1686-1748) para o livro The Faerie Queene de Edmund Spencer


Segundo o historiador Hines, o interesse nos castelos diferenciava entre os gêneros. As mulheres se interessavam mais na simbologia da arquitetura gótica como “patrícia”, ou seja, aristocrática, acima dos modos burgueses em ascensão; por outro lado, para os homens, o simbolismo dos castelos se relacionava mais à posse e força material, sendo o estilo do castelo uma mensagem para os seus rivais, seus dependentes e seus monarcas. (idem, p.69). (Em posts futuros vou falar sobre uma visão mais feminista da ficção escrita por mulheres que difere desta de Hines.)


Nesta época, a América do Norte estava sendo colonizada/invadida pela Inglaterra, e havia dois lados políticos, os Tory, mais conservadores e a favor da monarquia inglesa, e os Whig, que eram os favoráveis à independência da colônia. Ambos os lados políticos usaram do estilo gótico a seu favor e defenderam o estilo como o melhor para si: “homens de todo tipo político se apropriaram da pureza das instituições políticas góticas para sua causa” (idem, p.70), embora o gótico fosse mais usado para evocar o passado nacionalista medieval da Inglaterra.


Em meio a isto, Horace Walpole subverteu a imageria gótica das celebrações da autocracia territorial ao apresentar, em seu livro, os horrores que um homem de poder poderia realizar em prol de manter sua posição autoritária. Este livro foi O Castelo de Otranto, uma história gótica, 1764, com esse romance e respectivo subtítulo, Walpole deu início a um novo estilo literário, chamado de Literatura Gótica ou Ficção Gótica, a qual foi desenvolvida por outros autores ingleses e alemães. Posteriormente, no século XIX, outros autores norte-americanos deram continuidade ao estilo com o chamado American Gothic, como Edgar Allan Poe por excelência (1809-1849). Ainda mais para frente, teremos outros tipos como Gótico Sulista, Gótico pós-colonial, gótico latino americano, e outros.


Obrigada por ler até aqui!!!

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Até o próximo post o/

[1] Em arquitetura, um folly é um edifício extravagante, construído com a finalidade de expressão artística mais do que ter uma função. Follies, é plural.


REFERÊNCIAS:


CHARLES, Victoria, CARL, Klaus H.. Gothic Art. Nova Iorque, Parkstone Press Ltd, 2008.


COOPER, Paul. Europe Was Once Obsessed With Fake Dilapidated Buildings. The Atlantic, 18 de abril de 2018. Disponível em <https://www.theatlantic.com/science/archive/2018/04/fake-ruins-europe-trend/558293/>. Acessado em 7 de janeiro de 2021.


HINES, Richard Davenport-. Gothic: Four Hundred Years of Excess, Horror, Evil and Ruin. Londres: Fourth State, 1998.


LANG, S. The Principles of the Gothic Revival in England. Journal of the Society of Architectural Historians , Dec., 1966, Vol. 25, No. 4 (Dec., 1966), pp. 240-267. Disponível em <https://www.jstor.org/stable/988353>. Acessado em 7 de janeiro de 2021.

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