• talitarauber

CONTEXTO HISTÓRICO DO "GÓTICO" 1.1: Entenda a origem do termo e a associação com os godos

ESCRITO POR TALITA B. RAUBER, a.k.a. LATIN GRUFTI

2021

Livro de Charles River Editors sobre os Ostrogodos

O Gótico (1) é um termo que tem sua raiz no nome de um povo germânico, os godos, do inglês “Goths”. O historiador do Gótico Richard Davenport Hines aponta para a importância dos povos godos, ou góticos, na história do Gótico, uma vez que foram povos vindos da Escandinávia e leste europeu que aterrorizaram o Império Romano levando-o à queda no século III. Assim, o Gótico foi um termo associado a poderes obscuros, dominação e crueldade. No ponto de vista de Hines, os povos góticos têm mais a ver com o Revival Gótico do que artesãos e arquitetos de igrejas góticas (HINES, 1998, p.2). Segundo Hines, no século XVIII, se deu o Revival Gótico (2) , que ocorreu principalmente na Inglaterra na área da arquitetura, arte e literatura, também chamado de movimento Neo Gótico.


Os godos foram aqueles povos que migraram para o leste e sul da Europa e que enfrentaram os povos do Império Romano, dominando boa parte da Itália. Existem livros sobre os godos desde o século I, como em História Natural de Plínio, o Velho, onde são chamados de Gutões; até o século VI, como na História dos Godos por Cassiodoro, e em Gética pelo historiador gótico-bizantino Jordanes e Da Guerra Gótica por Procópio de Cesareia. Mas a caracterização dos povos godos como povos bárbaros, e o uso do adjetivo gótico como monstruoso, tem seu primeiro registro na literatura Ocidental em um texto do italiano Giorgio Vasari (1511-1574). Vasari foi considerado o primeiro “historiador da arte”, escreveu biografias de artistas e sobre técnicas artísticas no século XVI. Em um de seus livros, Vasari on Technique, ele descreve a arquitetura germânica, que estava chegando à Italia, e a chama de “gótica” com intenção pejorativa. Ele se refere ao estilo como monstruoso, bárbaro e o chama de gótico, pois, assim como os godos que destruíram a arquitetura antiga e mataram os arquitetos da Antiguidade Clássica nas guerras, os “godos que restaram” construíram a arquitetura deste estilo “gótico”.


“Chegamos finalmente a outro tipo de trabalho chamado de alemão, que tanto no ornamento quanto na proporção é muito diferente do antigo e do moderno. Não é nem adotado pelos melhores arquitetos agora, como também é evitado por eles como monstruoso e bárbaro, e carente de tudo o que pode ser chamado de ordem. Não, deveria antes ser chamado de confusão e desordem. Em seus prédios, que são tão numerosos que enojam o mundo [...]. Essa maneira foi invenção dos godos, pois, depois que eles arruinaram os edifícios antigos e mataram os arquitetos nas guerras, aqueles que sobraram construíram os edifícios neste estilo. ” (VASARI, 1907, p.84) (3)

Em nota sobre essa passagem, no livro traduzido, o Professor G. Baldwin Brown explica que, pelas datas, o estilo a que Vasari se refere é da metade do século XII e, sendo assim, ter-se-iam passado 6 séculos das guerras dos povos romanos com os godos, de modo que a Arte Gótica nada tem a ver etnologicamente com os povos godos, mas que hoje é improvável que se mude a terminologia. O professor Baldwin também alerta que, embora haja outros registros do uso do termo Gótico para algum estilo arquitetônico no século V, Vasari manteve o crédito à invenção do mesmo (VASARI, BROWN, 1907, p.135).


Portanto, a arte e arquitetura realizada entre a metade do século XII e o começo do século XV ficou chamada de “Arte Gótica”, famosa pelas catedrais. Segundo Victoria Charles e Klaus H. Carl, em seu livro intitulado “Gothic Art”, o estilo Românico influenciado pela Antiguidade Romana foi, aos poucos, substituído pelo novo estilo chegado à Itália, que foi chamado de “gótico” por Vasari. Os italianos associaram o novo estilo ao povo germânico, como citado no texto de Vasari acima, porém, o estilo gótico surgiu na França, perto de Paris, e não na região da Alemanha, região de onde teriam vindo os godos. Depois, sim, o ápice da criação gótica se deu na atual região da Alemanha: em Colonia, Ulm, Freiburg, Strasbourg, Regensburg e Viena (CHARLES, CARL, 2008, p.7).


Segundo os dois autores, Goethe admirava a Catedral de Strasbourg (Notre Dame) e, mais tarde, outros Românticos alemães viram a arquitetura gótica como uma arte dos mais altos padrões (idem). Devemos lembrar que este período é de transição entre o final da Idade Média e início da Idade Moderna. Assim, as igrejas góticas acompanharam o crescimento das cidades: a população crescia e o espaço dentro das igrejas também. As igrejas, altas e bem iluminadas, eram símbolo de poder e crescimento para uma cidade (ibidem). A altura exagerada das igrejas e suas ogivas são as características mais marcantes do estilo e, apesar de existirem explicações religiosas como na citação abaixo, os autores advertem que a vontade de pôr em prática uma técnica nova foi mais importante para os arquitetos e construtores da época do que simplesmente motivos espirituais de alcançar as alturas.


“Além disso, havia razões religiosas, nomeadamente a profunda pena que constituía o fundamento ético do homem medieval e o seu anseio pela benção do céu, que é visível externamente nas torres que alcançam o céu e internamente nas construções de pilares que elevam as abóbadas" (CHARLES, CARL, 2008, p.7) (4)

A Arte Gótica foi produzida até início do século XV, pois uma nova Era viria a começar. No final do século XIV, na Itália, surgiu um movimento de revalorização de ideais da Antiguidade Clássica. Esse movimento se estendeu pela Europa e por várias áreas do conhecimento, vindo a ser chamado de Renascença. E este tópico fica para o próximo post!


NOTAS DE RODAPÉ


(1) No inglês, aplica-se o sufixo “-ic” para denotar adjetivo, sendo “gothic” o adjetivo referente a “Goth”, e da mesma forma acontece no português, adicionando-se o sufixo adjetivador “-ico”, que exprime semelhança ou presença, como por exemplo, uma bebida alcoólica tem a presença de álcool.


(2) Pode haver uma pequena confusão de termos, uma vez que o outro principal autor usado neste trabalho, o curador Christoph Grunenberg, chama de revival gótico o movimento dado nos anos 1980, enquanto Hines chama o mesmo de ressurgência gótica. Entretanto, é comum entre os autores chamarem o período Neo Gótico do século XVIII de Revival Gótico ou Revivalismo Gótico.


(3) “We come at last to another sort of work called German, which both in ornament and in proportion is very different from the ancient and the modern. Nor is it adopted now by the best architects but is avoided by them as monstrous and barbarous, and lacking everything that can be called order. Nay it should rather be called confusion and disorder. In their buildings, which are so numerous that they sickened the world [...]. This manner was the invention of the Goths, for, after they had ruined the ancient buildings, and killed the architects in the wars, those who were left constructed the buildings in this style.” (VASARI, 1907, p.84)


(4) “Additionally there were religious reasons, namely the deep pity that constituted the ethical foundation of medieval man and his yearning for the bliss of Heaven, which is visible externally in the towers reaching for heaven and internally n the pillar constructions that lift the vaults up to vertiginous heights”


REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS


CHARLES, Victoria, CARL, Klaus H.. Gothic Art. Nova Iorque, Parkstone Press Ltd, 2008.


HINES, Richard Davenport-. Gothic: Four Hundred Years of Excess, Horror, Evil and Ruin. Londres: Fourth State, 1998.


VASARI, Giorgio. Vasari on Technique. Londres, J. M. Dent & Company, 1907, p.83.

28 visualizações0 comentário